“Eu vi o Bolsonaro passar da fase da negação para a da raiva”. Diz Mandetta

O ex-ministro ameaça disputar as eleições presidenciais de 2022, mas lembra que essas eleições ainda estão muito distantes e que seria “inócuo” discutir uma candidatura em meio a uma pandemia.

Como não pode trabalhar por seis meses, mantém seu salário em torno de 30.000 reais (5.500 dólares, 4.700 euros) por mês e se divide entre escrever um livro sobre o que aconteceu nos bastidores em Brasília durante a pandemia do coronavírus, visitando a fazenda da família e exercite seu hobby de carpinteiro. Médico e veterano político de direita, fez críticas ao Governo, especialmente na gestão da epidemia, em entrevista por videoconferência ao EL PAÍS na quinta-feira passada.


É usando seus conhecimentos médicos que fala sobre a posição de Bolsonaro diante da pandemia que, oficialmente, já matou mais de 106 mil brasileiros. “Tem gente que, quando recebe uma má notícia, quando o médico fala que tem leucemia, fala: 'Não acredito. Vou pedir outro teste '”, explica Mandetta, que o define como a fase de negação. “Na próxima fase, ele fica com raiva. Vi o presidente oscilar entre a fase de negação, que eram aquelas frases infelizes - 'é uma gripe' - e vi ele passar para a fase da raiva ”, diz.


Mandetta revela que no ambiente de Bolsonaro havia empresários, médicos e deputados que argumentavam que o Brasil teria menos de 10.000 mortes por covid-19, reforçando assim a negação do presidente brasileiro. “Ele aconselhou muito pouco com os ministros. Ele teve um aconselhamento paralelo. E quando você tem pessoas que te aconselham falando o que você quer ouvir, dizendo que você tem razão e que isso vai acabar, você não ouve ciência ”, diz. “Tentei explicar, coloquei por escrito”, lembra ele. Em 16 de abril, ele anunciou sua saída no Twitter: “Acabei de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o anúncio de minha saída do Ministério da Saúde”.


Ele conta que em várias ocasiões tentou alertar Bolsonaro para a gravidade da doença, oralmente e por escrito, e que o presidente conhecia as projeções de mortes. Entre os vários cenários que o ministério estava considerando, um indicava que o Brasil poderia chegar a 100 mil mortes em setembro. Atingiu essa cifra no início de agosto e hoje já tem mais de 106.000 mortes.


Bolsonaro queria, em um ano de eleições municipais, que o Ministério da Saúde entrasse em uma disputa política perante as autoridades municipais em novembro próximo. “Queria que o ministério saísse daquela doença, ficasse quieto e criticasse prefeitos e governadores, porque na eleição municipal o ponto principal é a saúde”, lembra. E assim “ele poderia dizer que estava lutando pela recuperação econômica, porque a economia é uma questão presidencial”.


Para o ex-ministro, as ações de Bolsonaro buscam mais distanciar-se da crise do que mitigá-la. A estratégia, ressalta, é assumir o papel do Ministério da Saúde, impedir que dê entrevistas, amenizar os números da pandemia e passar a responsabilidade aos governadores e prefeitos, últimos sujeitos a forte pressão local para afrouxar o quarentena em um ano eleitoral.


Mandetta acredita que as duas mudanças no Ministério da Saúde durante a crise - foi substituído pelo médico Nelson Teich, que renunciou há menos de um mês, e agora um militar, o general Eduardo Pazuello, é ministro interino - foram prejudiciais, mas a substituição da equipe técnica do ministério foi ainda mais grave e deixou o país “sem referência”, além de resultar no abandono das medidas preventivas, o que pode causar explosão de outras doenças no futuro, alerta.


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A essa “indignação” e a uma suposta necessidade de apontar os culpados, a médica Mandetta atribui afirmações como a de Pazuello, de que o ex-ministro cometeu um erro ao orientar, no início da pandemia, que as pessoas só vão aos hospitais se eles tinham falta de ar. “Uma crítica dele [Pazuello], eu ouço. Não posso criticar porque não entendo nada de militarismo, pára-quedas, armadilhas, [fuzis] AR15. Se eu fosse criticá-lo por não dobrar bem um pára-quedas, ele me olharia e diria: 'Ei, você já dobrou alguém na sua vida?' Eu ia dizer não. Na Saúde é mais ou menos igual ”, responde.


Mandetta, que deu longas e didáticas coletivas de imprensa todos os dias, diz acreditar que, no início da crise, conseguiu passar uma mensagem clara à população, apesar das divergências de declarações do presidente, mas esclarece que as informações contraditórias da OMS fez o Ocidente ter que modificar estratégias nos primeiros meses da pandemia. “Só quando ganhou força na Itália, o Ocidente aceitou a gravidade do problema e viu os sistemas de saúde de vários países entrarem em colapso. Mesmo no caso da Itália, nosso SUS [la sanidad pública de Brasil] ele estava se preparando para um vírus lento. Quando vemos que é um vírus com velocidade de transmissão muito alta, temos que redimensionar todo o nosso sistema ”, explica.


Diz que Bolsonaro imitou o discurso do presidente norte-americano Donald Trump e usou a cloroquina como atalho para acabar com o distanciamento social e priorizar seu padrão econômico. Ele afirma que o país demorará um pouco para voltar à mesa das decisões internacionais. “Não sei se o Brasil tem pior avaliação internacional para saúde ou meio ambiente”, diz.


Mandetta revela que a epidemia atendeu às projeções mais pessimistas de seu ministério, mas acredita que o número de mortes diárias deve começar a cair gradualmente neste mês de agosto. Olhando para trás, ela lamenta a evolução da pandemia no Brasil. “No dia 10 de maio, atingimos 10.000 mortes. Estamos em agosto com 100.000. Portanto, estamos causando 1.000 mortes por dia durante 90 dias, ininterruptamente. Não precisava ser assim ”, fala.


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Apesar das inúmeras críticas sobre como Bolsonaro administrou a crise, o ex-ministro diz que não viu um genocídio, como alegado por denúncias apresentadas ao Tribunal de Haia, mas "negligência" e "falta de socorro". Sobre se lamentar ter votado em Bolsonaro nas últimas eleições, Mandetta diz que não, mas espera não ter que escolher por exclusão em 2022, como fez em 2018, dada a polarização política. “É impossível, porque ele jogou a favor do que eu mais luto na vida, que é a morte.” O ex-ministro ameaça disputar as eleições presidenciais de 2022, mas lembra que essas eleições ainda estão muito distantes e que seria “inócuo” discutir uma candidatura em meio a uma pandemia.


Com informações do El País


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